musica

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Na Relva



Na relva você
Estendida, como morta
Espera-me sempre,
Como alguém que já morreu.

Teu desejo é fugaz
Mistura-se ao teu encanto,
Que aos poucos desaparece
Como a brisa da manhã.

Na relva, você
Planeja, faz gestos, canta
Uma canção que outrora
Chamaste amor.

Pássaros , aves mil povoam o céu
E teus pensamentos se perdem,
Entre ser feliz e livre
Ou ser alguém que já morreu.
                                                 
                                                  jan.2013

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Fragmentos 4




Raízes viajam sob o alfalto

Sementes mortas se esmagam

Sob pés frios   — Vozes

Ecoam, deslizam pelo tempo.

Aurora, meu peito se abre

E vomita os velhos sonhos,

Crianças brincam, as raízes

Dão o tom nostálgico.

                                       Dez.2012

domingo, 2 de setembro de 2012

Passagem









Por que partiram antes de mim?
Por que não tive um bilhete nesta viagem,
Por que a dor não se acalma?
Por que as lembranças batem mais e mais fortes,
Como se vermes comessem minha carne lentamente?
Por que tuas falas se extinguiram, quando eu
Mais preciso delas, e todo o resto silencia?
A manhã é clara, o sol brilha forte,
Vozes ressoam pelos quatro cantos, átomos
Deslizam pelas frestas, cercados de solidão.
Não, o tempo não volta, não voltará jamais,
Sorrisos, gestos, vontades, sonhos,
Desesperanças, medos, tudo se foi    –  Uma porta
No final do corredor se abre finalmente para mim....

                                                                     Setembro/2012
                                                              Para Adelia, Pixú e Dirceu   

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Os Três Bois ou Sangue na Manjedoura




Três bois discutiam sobre quem seria o próximo a ser abatido pelo homem de cavanhaque e botas longas;
—  Acho que serei eu, * disse o primeiro —  Afinal, sou o mais velho, e minha carne já não Será tão atrativa muito em breve; E pelo que me consta “nossos donos”, não podem perder dinheiro nesta brincadeira sem graça.
— Brincadeira, Você disse! — como pode chamar isto de brincadeira Caro colega?
— nossas vidas estão por um triz, eu é que não vou chamar isto de brincadeira, e sim de uma fúria imoral. — Amigo, acho que serei eu o próximo, pois apesar de ser mais novo que você, tenho mais peso, como muita ração e prejuízo é uma palavra que passa longe daqui. — sim, serei eu, *disse o segundo boi, com lágrimas nos olhos e um ar de desespero que tocou profundamente o mais velho.
O terceiro boi, que a tudo ouvia, era o mais novo da turma, ainda em fase de crescimento, tomou da palavra e assim falou: —  Caros amigos, com certeza o próximo a ser abatido serei eu!  — Afinal comemora-se entre os humanos a data em que um deles nasceu há muito tempo atrás e que depois seria morto pelos de sua própria espécie. E além disso, minha carne é apreciada , por ser macia e tenra, segundo dizem...
— Mas o que tem a ver o nascimento de uma criatura de outra espécie, ser comemorado com nossa carne? * resmungou o segundo.   — Se ao menos se alimentassem dos de sua própria raça ainda vai, mas nós! – o que temos a ver com isso? * Ruminou o primeiro. 
— Não sei, não sei... * choramingou o mais novo. — E vamos silenciando, que nosso algoz está vindo!.
Tarde quente, o sol se recolhendo e uma brisa suave sobre os campos; Meninos brincando sobre a relva, pássaros silenciosos em meio a lamentos vindo do curral.
Uma tarde de dor e sangue.
                                                         Agosto/2012
                    

domingo, 12 de agosto de 2012

À Deriva



Sentimentos nascem e morrem
Risos se transformam em lágrimas
Mentes ociosas —  brinquedos se quebram.
Uma coruja se balança em um fio invisível
Gotas de sangue tingem a roupa rasgada.
Do peitoril da janela, você me vê passar
Mas teu aceno é vago, frio e desaparece,
A tarde é calma, um outro sol se põe
Como se fosse o último dos sóis.
Barcos flutuam como almas perdidas,
És tão destemido — E crê na vida eterna —
Um pequeno lobo uiva em seu covil
De tuas pupilas  vertem gotas ácidas ,
Acende um incenso mirra, um grande olho
Mágico que pensa tudo ver, está cego
E nos deixa à deriva, vagando, vagando...

                                                                Agosto.2012

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Fragmentos 2



Toques mágicos, sem cor
Encobrem máscaras disformes.
Clara e melancólica manhã
Acordes repetidos, ressoam.
Batidas de coração — Anjos
Voam calmamente, seus sorrisos
Mórbidos se dissolvem no ar.


                                            Agosto.2012

E agora, onde vamos?



A boca que ri, absorta
O último que passa, sinos
Na capela, cordas, ritmos
Noite negra, lágrimas vãs.

Uma chance ao menos
Poderia tentar, não, não posso
De que adiantaria gritar,
A plenos pulmões, a glória.

Todos temos feridas a curar,
Uma vida só não basta
Talvez uma rota traçada,
Deixe traços de desespero.

Aonde quer chegar agora?
Teu vestido florido, ou raiva?
Todos temos perdões a dar
Mas de que adiantará?

Um cálice não mais sagrado,
Uma boca entreaberta, a fome
E sei que um vínculo permanece,
Ora forte, ora fraco....

Não me deixes agora, ou nunca
Tuas palavras já não enfeitam
Meu coração, meu lar, doce lar,
O que  fizemos de mal, ou de bem?

Toque a corda da vida, ou da morte,
Tudo nos espera, sempre, sempre
Já somos passado agora, tentar
Novos sonhos, não será possível.

Pai, Mãe, Avós, pretéritos mortos,
Uma criança chora, um anjo paira
Entre figuras geométricas, loucuras
Seria bom estar entre estas lacunas.

Todos temos feridas a curar,
Oh! Reis e Rainhas se foram,
Conte-me estórias de ninar,
Uma vida só não basta.....

Quando perceberemos que o amor,
Já se foi a muito, muito tempo,
Uma chance é o que pedimos agora,
Mas já é hora da morte, eu sei, eu sei...

Décadas se foram, deixaram marcas,
Teus lençóis brancos, o amor, uma crença
De que  tudo poderíamos — de que se gaba?
Acabaram-se as flores, restam lápides. 

                                                               Agosto.2012


sábado, 4 de agosto de 2012

Damas Brancas



Você prometeu que voltaria
E daria a volta por cima,
Mas por enquanto a terra gira
Tão rápida, só e vazia.
A dor nos olhos das pessoas,
Me faz sonhar com dias melhores
Mas sonhos são apenas chamas
De um fogo em extinção.
A tarde é calma — teus olhos voltam
E  já não podem ver, são as damas brancas
que sempre voltam, me espreitam.
Posso vê-las agora, muito  tarde para temer.
As palavras perdem-se no tempo e voam
Rosas amarelas à beira da estrada,
Uma febre me assola, cães abandonados
Farejam os rastros , e voam, voam
Rumo ao espaço, devoram-me, é inútil.
Há um caminho apenas, sob frondosas árvores,
E em seus galhos fortes, apenas forcas.
                                                                   Agosto 2012

domingo, 22 de julho de 2012

Babushka










O dia vai amanhecer, não preciso de outro dia
Nada mais  há que me impeça de voar, ou sonhar

Lamentos por toda  parte, leilão de angústias
Não me façam parir o que trago dentro de mim

Violetas suaves, borbulhas que vem do céu, tua voz
Me embriaga, lá se vão os fantasmas de meu medo

Não sei que dia é hoje, tanto faz, pode ser domingo...
O ouro que  carrego está em meu coração

Amanhã será lua nova, um caminhão passa, vazio
Não sei se tem alguém ao volante –  Fantasmas

No jardim de meus anseios, passeiam víboras
Às vezes soltas, outras vezes enlatadas

Tua voz, vem soando baixo, muito baixo,
Mas posso ouvir bem o que sempre quis dizer

Não há lugar para escapes, um velho pneu roda
Neste asfalto quente, mas é simples loucura

Deixo que anjos investiguem a causa, caudas azuis
Queixos finos, semblantes nostálgicos, são anjos

Preciso tentar adormecer, e ver o que encontro
Dentro de meu imaginário, é sempre você, amarela

Rompendo os muros, trocando tudo por dinheiro,
A víbora desce pelas entranhas da mulher

O mesmo semblante, pacífico, cruel, tuas jóias
São compradas no mercado negro – Tua alma

Um coração dispara, alarmes soam acima do rio
Que deixa suas águas livres, vejo o mar

O dia amanhece, já não sei se o sol vai aparecer
Nada mais há  que me impeça de voar, ou sonhar.
                                                    Para Sylvia Plath
                                                   Julho/2012 - 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Fragmentos








Sons abafados emergem
Vindo de grutas fantasmas   – Ruídos
Misturam-se, ondas sonoras adentram
Meu cérebro, pequeno, incapaz que é
De decifrar o que dizem as criaturas,
De outras esferas, ou de meu próprio subterrâneo.
Ainda há esperança, um pássaro plaina
Restos de tinta umedecem o papel  – Silêncio
Umectante, às vezes alcalino, talvez a paz.
Bonecos infláveis flutuam, flácidos, vazios,
Por entre águas mornas, estagnadas  – A própria vida.
Ruídos emergem das grutas negras do hemisfério norte,
Chocam-se com memórias passadas, quebra-se o elo,
Uma cor branco acinzentada paira, uma janela
Fechada, posso sentir o perfume que ainda paira.
Vez ou outra, os mesmos sons voltam,
Como fantasmas bailando a dança final.
                                                                   julho/2012
                                                            

domingo, 3 de junho de 2012

Dentro dos sonhos




Em seu caminho passam
Nuvens, vultos, raízes e flores
Em seu caminho, cruzam
Carros, crianças, palhaços e fantasmas.
Em seu caminho, o tempo não é
Nem nunca será... Apenas um caminho,
Por onde cruzam carros, crianças,
Palhaços, fantasmas e anjos do além.
Em seu caminho se ouve
Adágios, andantes, Haydn ou Chopin,
Em seu caminho o Sol ainda não nasceu,
Nem existirá qualquer explosão.
Tudo é silencio, paz... e passam,
Nuvens, vultos, raízes e flores,
Ouve-se Suítes, Sonatas, Prelúdios,
Mendelssohn, Liszt, Debussy.
Em seu caminho, guerra e paz
São apenas palavras, sílabas, vogais,
E Deus é a memória por nascer.
Em seu caminho, lágrimas são
Pedacinhos de astros estelares,
E a saudade, um bálsamo, cujo perfume
Perde-se na memória dos tempos...
                                                           Junho/2012

A Cobra, o Galo e a Montanha




Há muito tempo vivia em um Pais distante, uma cobra, que vivia triste, pois queria muito chegar ao topo de uma alta montanha; Passava os dias  a se lamentar, se lamentava tanto que seus parentes mais próximos a abandonaram, e seus amigos se foram.
Em uma casa nos arredores de onde vivia a cobra, morava um galo, que nas manhãs primaveris, quando despontavam os primeiros raios de sol bem longe, cantava, cantava e cantava, tão feliz que era por existir e por poder apreciar a bela montanha bem ao fundo, onde se iniciava o céu  e onde ele imaginava ser a morada dos Deuses.
Certa manhã, quando o senhor galo ensaiava as primeiras notas em uma escala “eólia”, percebeu que alguém soluçava baixinho bem perto dali; Deu alguns passos, atravessou um belo pomar, carregado de maçãs vermelhas, que brilhavam radiantes de felicidade, desceu uma pequena rampa, atravessou um extenso gramado que circundava o lago de águas claras e onde ele todos os dias ia beber daquela água saborosa e refrescar suas penas.
Encontrou então a senhora cobra, cabeça baixa e um olhar triste e banhado de lágrimas; Perguntou então o senhor galo – O que se passa amiga cobra?-
Ao que a mesma respondeu  Senhor galo, saiba ilustre colega,  que fui abandonada por meus familiares e meus amigos próximos, dentre os quais, três sapinhos, uma coruja, quatro minhocas e um velho tatu.  – Porque lhe abandonaram, se mal lhe pergunto? indagou o galo. – Bem, respondeu a cobra Se cansaram de minhas lamentações diárias, pois vivia a me queixar por não poder na montanha chegar .
O galo baixou a cabeça, deu duas ou três ciscadas no chão, sacudiu as penas brancas e lustrosas, aproximou-se mais da cobra e assim falou: Temos que agradecer por aquilo que a natureza  nos dá; Olhe ao seu redor, estas flores lindas, sinta este perfume! As  águas mansas do lago, árvores frutíferas neste pomar...   não vês quanta beleza existe em tudo que nos rodeia, amiga? – Ademais, acho que se chegasse lá no topo da montanha, até ficaria decepcionada! – Você acha? - perguntou repentinamente a cobra. – Claro , colega! De lá veria a paisagem cá embaixo e sentiria saudades, Não terias o calor que tens aqui ,nem uma boa água para se banhar, nem tampouco  abundância de alimento,  além de ter que se esconder das águias que por lá habitam.
 – Tens razão, meu bom amigo galo, fizeste-me ver coisas que eu não via. – Oh! Como fui tola e insensata! Vou já voltar para casa e contar as boas novas para todos que fugiram de mim. – Me dê um abraço amigão! – foi logo dizendo então a cobra. Mas o galo como era esperto, recuou e acenando para a cobra, despediu-se neste tom: Não precisas me agradecer cara colega, e agora me desculpe, pois tenho que ir rapidamente para casa, pois meus sobrinhos me esperam.  E foi subindo o gramado, cantando, cantando, feliz.
..E lá no alto, bem longe, a montanha que a tudo ouvia, permaneceu  em seu silêncio letárgico.
                                                                  Março.2011
 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Análise de um estranho Deus






Deus é estranho!...de repente, resolve sem mais nem menos, transformar alguem em uma borboleta, uma maçã aromática, um grão de areia, um perfume de rosas, um sapinho, uma pérola, um golfinho, uma gota de uma cachoeira, um gesto de amor, uma cereja, uma palavra, um pensamento, um som, um urso polar, um ponei, ou um pequeno bezerro, uma larva de mosca, um cometa, ou meteoro....mas caramba!...nem nos consulta antes...Deus é estranho mesmo!!!

                                                                      24/05/2012

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Primeiro dia de Outono







Riscos na parede emergem
De uma dimensão oposta, na TV ligada
Uma sonata ao amor, frágeis sentimentos
Eclodem em minha alma, padeço.
Inúmeros sons se misturam, sombras  - Silêncio.
Em alguma manhã de outono, uma criança
Ao nascer, sonha com o passado distante
E balbucia sons, não consigo compreender.
Miséria nas ruas, um véu na noite – Uma noiva
De preto, de luto, rosa, cetim.
Dedos fazem sinais no ar, suavemente,
Latidos de um cão na noite, vozes.
Sinto minha alma nua, pálida – Gélida
Que se esvai,como gotas de orvalho
Quando caem suavemente das flores.
E o tempo escoa, lentamente, lentamente.....
                 
                                                     21/05/2012

domingo, 20 de maio de 2012

Escadas mortas




Nas madrugadas frias --  Óvulos
Que se escondem e se quebram
Como pontas de lápis afinadas.
Velhos sonetos repetidos,
Sorrisos à beira de uma loucura
Um grito de alerta! Não parem
Copos, cópulas, sangue
Vermes , pares dançantes.
Você se foi e é  só o que restou...
Quadros nas paredes, velhos filmes,
Na soleira da porta teu pisar marcado
Para todo o sempre.
                                             20/05/12
                                

domingo, 29 de abril de 2012

In Memorian


Em toda parte que eu olhar
Verei você , serei você.
Em todas as ruas, em todas esquinas,
Você estará me olhando.
Nas escadas rolantes e nas noites
Nos dias de chuva, ou no silencio de meu quarto
Verei você, serei você.
Em meus sonhos, ou meus delírios,
Em minha loucura , em minha tristeza
Em toda parte que eu olhar,
Tudo o que eu fizer lembrará você
Sim, em toda a parte
Até quando eu me for...
                                                                                           29.04.2012
                                                                                                         

                                     Ao meu querido Pixú. 
                              +25.07.2011 *29.04.1989                                                                                                                        


segunda-feira, 9 de abril de 2012

Os caramujos










Os caramujos passeiam pelo jardim
Agora são pisoteados por pés inescrupulosos,
A grama é alta, tiro o chapéu – você é tão linda!
Preciso recuperar a minha fé,
Mesmo que seja em duendes ou ovelhas
Que se perdem nas montanhas, adoro teu sorriso...
Lembra-se de como eu costumava te olhar?
Pelas frestas, muros de arrimo, pelas noites de luar.
Por que se foi sem me desejar boa sorte?
Neste mundo ríspido, banal, tenho um rifle
Preparado para definir entre o sim e o não .
Tenho a nítida impressão que ainda pensas em mim,
E meu desespero toma formas mais suaves...
Imagino-lhe deitada na grama alta – Olhos fechados,
Enquanto os caramujos passeiam tranqüilamente
Sobre teu corpo semi despido – Eles sabem
Que serão pisoteados

                                                         Abril.2012

sábado, 17 de março de 2012

Raízes

 






Lágrimas caem, a dor!
Vultos trafegam, não posso vê-los,
Dedos frágeis, silêncio.  – por quê?
Seguir, não há tempo para querer,
Cortaram as raízes, sobraram pontos
Que se dissolvem lentamente.
Os pássaros dormem agora - Sonho
Abraço-te forte, Noite fria.
                                          In Memorian  - Pixú - 1989 - 2011        
                                                      Março.2012

sexta-feira, 2 de março de 2012

Desintegração












Os poros fecham-se – há poeira no ar
Uma sensação de paz acompanha o instante,
Derradeiro sonho, janelas fechadas.
Negra fonte de luz,   - Espasmos –
Reis e rainhas caminham de mãos dadas,
Existe uma toca no caminho, raposas
Dormem o sono eterno, existem
Fetos, feridas a cicatrizar, lembranças...
Em um momento único abre-se
O manto da morte.

                              Março 2012

O Burrico e os apóstolos na Nona Dimensão

Certa manhã, um burrico andava por uma campina, repleta de flores, onde beija-flores recolhiam o néctar sob a luz de um sol que teimava em brilhar e brilhar;
De vez em quando o burrico parava, cheirando algumas flores, extasiado; Mexia  sua cauda sob o olhar atento de   
formigas que discutiam sobre como começar uma nova escavação subterrânea.
No outro lado do mundo, um anjo permanecia imóvel, como que querendo entender o porque da presença de anjos em um espaço cósmico quase imperceptível até para os próprios anjos; uma bolha cristalina pairava entre os dois mundos, repleta de pensamentos e equações ainda não reconhecidas, - do outro  lado do hemisfério norte cá na terra,tinha-se a impressão de serem parcas as possibilidades de continuidade de vida, os úteros prenhes aguardavam o momento da fecundação – É tudo tão estranho neste momento, pensou alguém - .
Vultos preenchiam a imaginação de seres vivos, rosas desabrochavam  por si próprias, amarelas, brancas, rosas, vermelhas, junto a tulipas, girassóis , jasmins......enormes pessegueiros se entreolhavam, suas lágrimas escorriam em forma de seiva, abundante, uma tristeza Universal se erguia agora.
...O burrico continuava seu caminho, sem saber ao certo quais eram as horas naquele dia claro, vagava sem direção e deixava que seus passos o levassem a qualquer lugar, talvez ao caminho de um mar infinito de flores, pássaros e jasmins;
Ainda é cedo aqui nesta cidade; Uma mulher recém casada, prepara o desjejum, absorta em seus pensamentos, seu útero preparado para nova cria. Crê ainda em Jesus e seus apóstolos desconhecidos -  a extrema unção de seu próprio ser está preparada e uma mesa farta de  alimentos em decomposição será posta.
.........Talves o burrico seja a forma última de um Deus que, cansado de tanta lisonja, tenha decidido caminhar a esmo por uma campina, repleta de flores, onde beija-flores teimam em recolher o néctar, sob a luz de um sol que teima em brilhar, brilhar, brilhar...

                                                           Março 2012

quinta-feira, 1 de março de 2012

Um último olhar para o mar


Tarde, calma, vazia
O mar traz as lembranças – passado
Suas ondas sonoras, sibilam
Em meus ouvidos, lágrimas
Escorrem e desaparecem na pele,
Pigmentos formam a base
de uma estátua em cera.
Incapaz de decifrar os enigmas,
Deus adormece nos braços
De um asteróide veloz, ecos –
Vigília eterna, foram-se os dias
Um a um, afinal.
Sinto a areia morna sob meus pés
Vultos aparecem, tomam forma,
De todos os momentos, sinto
Seus olhares tristes, contornos
Desiguais, mãos dadas,
Um grande círculo, a praia
Que pisei um dia, e nós velejamos
Felizes, e naufragamos, ociosos
E incapazes de compreender,
Os ciclos das marés, de nós mesmos.
Em meio a tantos rostos opacos,
Consigo lhe ver,  - soluços.
E um eterno abraço.    

                                                Março.2012